O PT se faz de vítima
Editorial
do Estadão
01/04/2015
Depois de 12 anos no poder,
por força de suas próprias contradições e, sobretudo, da incompetência do
governo Dilma Rousseff, o PT está isolado politicamente no Congresso Nacional e
restrito, nas ruas, ao tímido apoio das organizações sociais e sindicais que
manipula. É a crise mais aguda que enfrenta em 35 anos de existência. Ao longo
dessas décadas mudou muito, principalmente em função da conquista do poder. Mas
num ponto permanece exatamente o mesmo: nos momentos de aperto, apresenta-se
como vítima de algozes impiedosos, os tais “eles”, esses entes abstratos que
agora estão armando um esquema de “cerco e aniquilamento” da legenda, movidos,
é claro, pelo mais torpe dos motivos: não se conformam com o fato de o PT ter
“tirado efetivamente 36 milhões de brasileiros da miséria”.
Esse argumento de esquerda
de botequim é risível fora do ambiente libatório em que germina. Torna-se
patético quando apresentado por dirigentes partidários com o aval de Lula e do
presidente nacional Rui Falcão. Vira sintoma de patologia grave quando aprovado
em reunião dos 27 diretórios regionais, com a presença do ex-presidente da
República e de membros da Executiva nacional. Foi o que aconteceu na
segunda-feira passada na capital paulista.
Lavrado nos termos do
populismo maniqueísta de Lula – que divide o País entre “nós” e “eles” e
durante o encontro proclamou que “o PT não pode ficar acuado diante dessa
agressividade odiosa” – o manifesto petista declara: “Não toleram (“eles”,
claro) que, pela quarta vez consecutiva, nosso projeto de País tenha sido
vitorioso nas urnas” e os “maus perdedores no jogo democrático tentam agora
reverter, sem eleições, o resultado eleitoral”. Em resumo: “Querem fazer do PT
bode expiatório da corrupção nacional e das dificuldades passageiras na economia”.
Para começar, se há quem não
tenha o direito de condenar “agressividade odiosa”, esse alguém é o próprio
Lula, que cresceu na militância sindical estimulando o ódio de classes e como
líder político ensinou a companheirada a tratar os adversários como inimigos
que devem ser destruídos e não apenas vencidos no voto. Ao longo de sua
carreira política apenas uma vez Lula despiu a fantasia de ferrabrás: em 2002,
para se eleger presidente, transfigurou-se no “Lulinha paz e amor”.
Em relação à intolerância ao
“projeto de País” do PT, é oportuno o testemunho de Frei Betto, histórico
colaborador de Lula e do PT, que apesar de decepcionado com ambos ainda acha
que os 12 anos de governos petistas, “apesar de todos os pesares – e põe
pesares nisso – foram os melhores da nossa história republicana, sobretudo no
quesito social”. Em entrevista à coluna de Sonia Racy publicada segunda-feira
pelo Estado, Frei Betto qualifica o partido de Lula: “O PT trocou um projeto de
Brasil por um projeto de poder. Permanecer no poder se tornou mais importante
do que fazer o Brasil deslanchar para uma nação justa, livre, soberana e
igualitária”.
Sugere ainda o apelativo
manifesto petista que os adversários do governo, “maus perdedores”, se
articulam agora para depor a presidente da República por meio de um golpe, que
seria o impeachment. Ignora deliberadamente o documento petista que impeachment
não é golpe, mas recurso constitucional que já foi usado com o apoio
entusiasmado do PT, para depor um presidente, Fernando Collor de Mello. Ignora
também que no caso de Dilma Rousseff a proposição do impeachment está longe de
ser unanimidade entre os opositores do governo.
O manifesto de vitimização
do PT exibe ainda o argumento de que “eles” procuram criminalizar o partido
pela corrupção que corre solta e só não é encontrada onde por ela não se
procura: “Querem fazer do PT bode expiatório da corrupção nacional”. Rui
Falcão, em entrevista após a reunião, teve o despudor de proclamar: “Faço um
chamamento a nós sairmos da defensiva, enfrentarmos de cabeça erguida aqueles
que nos atacam, porque é impensável que a gente possa ser acusado de
corrupção”. O STF, a Procuradoria-Geral da República e a Operação Lava Jato que
o digam.
O manifesto menciona ainda a
acusação que também se faz ao governo de ser o responsável por “dificuldades
passageiras na economia”. Não se pode dizer que seja uma afirmação
surpreendente, porque o PT não desce do palanque nem para governar.

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