Viva a guerra!
REINALDO AZEVEDO
FOLHA DE SP - 14/03
“O poder, como o entendem os
companheiros, só pode ser exercido quebrando a espinha do principal aliado”.
O PMDB, como regra, "só
dá alegrias" à presidente Dilma Rousseff, certo? Antes disso, conduzia
Luiz Inácio Lula da Silva a verdadeiros êxtases, inenarráveis, por óbvio, no
idioma de Camões. E não é menos verdade que tenha feito a felicidade de FHC, de
Itamar ou de Sarney. Ocorre que, de vez em quando, os peemedebistas ficam
descontentes e apresentam a fatura. Na economia de mercado, há vendedores
porque há compradores --e vice-versa. Vale para o comércio de apoio político,
de feijão ou de drogas. Como não se vai criar uma agência reguladora para
estabelecer a ética das trocas de Brasília, os protagonistas é que definem as
regras da relação, tornando-se responsáveis por aquilo que cativam. Dilma não
precisa nem ler "O Príncipe", basta "O Pequeno Príncipe".
É curioso! Sempre que os
petistas são, como eles dizem, "chantageados" pelo PMDB, recorrem à
Quinta Cavalaria, formada pelos bravos soldados do jornalismo e do colunismo. A
nossa tarefa (minha, não!) passa a ser, então, fazer a "faxina ética"
em lugar do petismo, desmoralizando os peemedebistas recalcitrantes. Hora de
retirar do arquivo, por exemplo, a "ficha" de Eduardo Cunha (RJ), o
líder do PMDB na Câmara e chefe da rebelião, desmoralizando-o, evidenciando que
suas ações atendem apenas a apelos menores e a interesses pessoais. Os petistas
se apresentam como a plêiade dos éticos enfrentando "o rei da fisiologia,
do baixo clero e dos interesses inconfessáveis".
Já escrevi em meu blog e
repito aqui: aplaudo de pé a rebelião liderada por Cunha. Na relação PT-PMDB,
prefiro a guerra à paz. É melhor para o país. Dez ministros, mais a presidente
da Petrobras, terão de dar explicações à Câmara? Haverá uma comissão para
acompanhar a investigação de eventuais falcatruas na Petrobras? Tuma Jr. foi
convidado a falar o que diz saber sobre o Estado policial petista? Ótimo!
"E se Dilma ceder e pagar o preço de Cunha?", poderia indagar alguém.
Aí eu vou vaiá-lo, ué! Também de pé! Como já fiz tantas vezes. Só que, nessa
hipótese, ela também será alvo dos meus apupos.
Acho, sim, que fazer a
crônica das eventuais motivações menores desse ou daquele tem interesse
jornalístico. Mas jornalista não é soldado. Ignorar que o conflito em curso é
também expressão das tentações hegemônicas do petismo, como deixam claro os
palanques estaduais, corresponde a abandonar o jornalismo em benefício da
fofoca ou do cumprimento de uma tarefa. O PMDB é o próximo alvo dos petistas
caso Dilma se reeleja. O poder, como o entendem os companheiros, só pode ser
exercido quebrando a espinha do principal aliado.
A essência da proposta de
reforma política do PT, por exemplo, que está prestes a ser feita no tapetão do
STF por iniciativa da turma de Luís Roberto Barroso -refiro-me ao financiamento
público de campanha--, busca, no médio prazo, destroçar o PMDB. É uma aspiração
compatível com os marcos teóricos da companheirada. Só não vê quem não sabe.
Finge não ver quem já sabe.
De resto, no que concerne
aos marcos institucionais, o PMDB, ao menos, está entre os fiadores da
democracia. Descartou, por exemplo, num congresso partidário, de modo
peremptório, canalhices como o "controle social da mídia" --essa
mesma que os petistas costumam pautar de forma tão eficaz contra... o PMDB.
"Ah, mas existe a questão ética!" Algum coleguinha que cobre os
bastidores de Brasília teria a cara de pau de asseverar que há uma substancial
diferença de padrão entre os dois partidos?
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