Vida normal para a ex-quadrilha
Guilherme Fiúza
REVISTA
ÉPOCA 10/03/2014
Desenho colocado pelo Blog
O governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, foi visitar José
Dirceu na prisão. Era uma visita clandestina, que acabou descoberta. Agnelo
confirmou o encontro com o chefe da ex-quadrilha do mensalão (o STF determinou
que o bando seja tratado doravante como coautoria, o que fica mesmo mais
elegante). Agnelo explicou que participava de uma inauguração ali perto, e
aproveitou para fazer uma inspeção na Papuda. Aí, esbarrou com Dirceu.
Foi, portanto, um encontro casual, como outro qualquer. Se Agnelo
estivesse vagando pela Marquês de Sapu-caí, poderia ter esbarrado na Sabrina
Sato. Como o role-zinho era no presídio da Papuda, esbarrou com José Dirceu.
Cada macaco no seu galho. A única coisa estranha nessa história é a reação do
Brasil a ela.
A oposição reclamou, disse que a visita não programada afronta o sistema
penitenciário e as sanções por ele firmadas. A oposição é uma mãe. O que
incomodou os adversários do PT foi o "privilégio" de Dirceu, ao
receber Agnelo na cadeia. Com uma oposição dessas, dá para entender por que o
PT vai para 16 anos no poder.
O governador do Distrito Federal visita clandestinamente na cadeia um
criminoso, que por acaso é do seu partido, que por acaso foi condenado por
corrupção não num desvio pessoal, mas no exercício da política partidária,
exatamente aquilo que o liga a seu visitante. Um governador filiado ao PT foi
visitar um ex-ministro também filiado ao PT, preso por roubar o contribuinte.
Sobre o que eles conversaram? Agnelo foi dar um pito em José Dirceu,
dizendo-lhe que nunca mais repita isso? E que, enquanto ele não se regenerar e
cumprir toda a pena, não é mais seu amigo?
Seria interessante saber. Porque, se não foi isso, se não houve
reprimenda, nem conflito, o que houve? Solidariedade? Não, não é possível: um
governador não pode ir à cadeia apoiar um político condenado por corrupção.
Seria um escândalo. Se também não foi isso, o que aconteceu no tal encontro
casual? Falaram sobre Neymar e Bruna? Cauã e Grazi? Sobre o último esquete do
Porta dos Fundos?
Depois, esse Brasil abobado e carnavalesco não sabe por que os
companheiros representantes do povo pintam e bordam. Agnelo, o dublê de
governador e cortesão de mensaleiro, deveria ser interrogado - pelo Congresso
Nacional, pelo Ministério Público ou pelo raio que o parta. Deve explicações
pormenorizadas sobre o seu encontro obscuro, em pleno exercício do mandato, com
o parceiro condenado. Se nada explicar, autorizará a suposição de que Dirceu
continua seu chefe político e que a ex-quadrilha é bem maior do que aquela
julgada pelo STF.
Um indivíduo citado pelo bando de Carlinhos Cachoeira como o "01 de
Brasília", que permaneceu no cargo de governador imune aos graves
indícios, graças à implosão da CPI do Cachoeira e à alergia dos brasileiros a
investigações longas, deveria ser no mínimo receoso. Mas essa turma já não tem
receio de nada, porque depois de toda a pilhagem volta a se encher de votos, na
mais perfeita lavagem de reputação proporcionada pela maravilhosa democracia
brasileira. Fora um camicase, como Roberto Jefferson, ou um franco-atirador,
como Joaquim Barbosa, o terreno está sempre limpo - lavou, está novo.
O Supremo diz que os mensaleiros não formaram uma quadrilha, o
governador visita o chefe na cadeia, e o Brasil chupa o dedo. Tudo certo. Se os
companheiros formassem uma quadrilha, não bastaria operar dentro do mesmo
partido, com o mesmo despachante, com os mesmos prepostos estatais (um deles
está na Itália, esperando uma visita casual do companheiro Agnelo). Não
bastaria montarem juntos um mesmo esquema de sucção de dinheiro público para o
caixa partidário, com o mesmo tesoureiro coordenando tudo, as mesmas salas e as
mesmas secretárias. Só configuraria formação de quadrilha se todos eles usassem
aquela mesma máscara dos Irmãos Metralha - e isso, o ministro Luiz Roberto
Barroso deixou claro, com todo o seu lirismo, não aconteceu.
Enquanto Agnelo esclarecia que esbarrou por acaso com Dirceu no xadrez,
a ex-ministra Gleisi Hoffmann esclarecia que quem salvou o Plano Real foi o PT.
Viva a verdade bolivariana, que o Brasil consagrou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário