ESCRITO POR FLAVIO QUINTELA
15 MARÇO 2014
O ser humano é extremamente frágil ao nascer. Chegamos ao mundo nus,
analfabetos, desprovidos de linguagem articulada, quase sem mobilidade e
totalmente dependentes dos adultos à nossa volta. A única coisa que sabemos
fazer é chorar, na esperança de conseguir uma mamada a mais para saciar nossa
fome. Ou seja, sabemos como pedir comida, e dormimos durante a maior parte do
tempo, aquela em que não estamos pedindo ou mamando. É uma situação provisória
(ou deveria ser); afinal, nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos,
como qualquer outro ser vivo.
Um adulto tem o
físico muito mais desenvolvido do que o de um bebê. De pequenos seres imóveis
enrolados em mantas da galinha pintadinha passamos a seres enormes que andam,
correm, pulam, dançam etc. Até mesmo os portadores de deficiências físicas têm
muito mais mobilidade que um bebê recém-nascido.
Mas e nossa mente?
Ela também evolui bastante, pelo menos no caso de pessoas normais, não
petistas. Nosso raciocínio, que se resumia a “teta = comida”, pode chegar a
níveis de genialidade nas mais diversas áreas. Quem poderia imaginar que o bebê
Einstein, que só sabia chorar, dormir e mamar, faria uma diferença tão grande
na história da ciência?
Não podemos nos
esquecer da linguagem. Aqueles sons indecifráveis, que depois passam a “gus” e
“dás”, são incomparáveis à riqueza de vocabulário e à capacidade de comunicação
e articulação de um adulto. Passamos de zero para milhares de palavras, que
além de faladas podem ser escritas e lidas.
Agora quero fazer
duas perguntas muito importantes:
1. Por que é que
evoluímos em todos esses aspectos que mencionei quando crescemos e
amadurecemos, mas muitos de nós não evoluem no que diz respeito ao hábito de
pedir?
2. Por que o brasileiro
pede tanto?
Embora eu não seja um
expert no assunto, creio que posso esboçar uma única resposta para ambas as
perguntas. Na verdade não é bem uma resposta, mas uma análise sob minha ótica,
que desejo compartilhar com você. Nesta análise usarei como comparativo os
Estados Unidos, país de um povo com uma cultura e uma mentalidade bastante
distintas das nossas, mas poderia ter usado diversos outros exemplos de nações
desenvolvidas.
Quando eu era
criança, eu nunca recebi mesada. Mas alguns de meus amigos recebiam, e nenhum
deles precisava fazer nada em troca, a não ser se comportar um pouco. E pelo
que tenho visto na juventude de hoje, a coisa vai por aí: a mesada não exige
uma contrapartida para ser dada, mas pode ser cortada momentaneamente em caso
de mau comportamento. Se compararmos esta situação com o que acontece nos
Estados Unidos, veremos uma tremenda diferença na mensagem que um pai passa a
seus filhos – lá o dinheiro é geralmente fruto de tarefas caseiras que as
crianças têm de fazer. Ajude sua mãe com a louça, arrume seu quarto, recolha as
folhas no quintal, e você receberá um dinheirinho. O legal é que isso não fica
somente dentro da família da criança (ou adolescente), que acaba fazendo essas
tarefas também para vizinhos, descobrindo desde cedo como empreender e criar
sustento próprio. A mensagem é clara: você não está ganhando, você está
merecendo. E antes que alguém venha argumentar que não se pode condicionar o
amor aos filhos, já digo que mesada não é ato de amor e nem obrigação dos pais
para com os filhos.
Outra diferença muito
interessante entre os dois países está na concepção linguística do trato com o
dinheiro. Aqui no Brasil perguntamos “quanto você ganha?” e respondemos “eu
ganho cinco mil por mês”, enquanto um americano utiliza equivalentes bem
diferentes; lá se pergunta “quanto você faz?” (how much do you make?) e se
responde “eu faço cinco mil por mês”. Ou seja, aqui nós ganhamos dinheiro, lá
eles fazem dinheiro. Percebe a diferença? Ganhar não traz consigo a obrigação,
o merecimento e o esforço. Fazer é diferente, é algo que requer a ação direta
da pessoa, que denota atitude. Lá eles aprendem desde crianças que não se ganha
dinheiro do nada, mas que toda remuneração é decorrência de nossos esforços e
trabalho, evoluindo assim da condição de bebê pidonho para adulto realizador.
Vale mencionar que o Obama tem tentado de todas as maneiras acabar com essa
mentalidade, mas que ainda não conseguiu. Já aqui…
O governo petista
sabe muito bem que o brasileiro é assim. Ou você acha que é apenas uma
coincidência que tenhamos tantos programas assistenciais eleitoreiros?
Bolsa-Família, Bolsa-Leite, Bolsa-Casa, Bolsa-Geladeira, Bolsa-Presidiário,
Bolsa-Eletrodomésticos, e por aí vai: somos o país dos Mendigos Tupiniquins.
Pede-se o tempo todo, em todos os lugares, para qualquer pessoa, mas
principalmente para o governo. E assim vive o brasileiro: gente pedindo de um
lado, e o governo dando (uma miséria) do outro; no meio ficam todos aqueles que
trabalham todos os dias para pagar os impostos que irão sustentar o pessoal das
pontas. Como consequência, quem pede vota em quem dá, e quem paga vota em quem
não ganha. E assim se usa a democracia da forma mais perniciosa possível,
comprando as pessoas pelo preço miserável que elas mesmas se atribuem. Não é
difícil perceber que esse não é um ciclo virtuoso, muito pelo contrário.
O mais triste de tudo
isso é que hoje o povo brasileiro pede dinheiro e recebe esmola, pede comida e
recebe pasto, pede justiça e recebe afronta. A continuar assim, não demorará
muito para que peçamos liberdade e recebamos o cárcere, que peçamos a paz e
recebamos a morte. Temos que parar com isso – chega de pedir! Que me desculpem
o clichê, mas precisamos de gente que faz.
*Flavio Quintela, escritor, edita o
blog Maldade
Destilada e está lançando, pela Vide Editorial, seu primeiro
livro, Mentiram (e
muito) para mim.
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