Cadê a quadrilha que estava aqui?
GUILHERME
FIUZA
O
GLOBO - 15/03
Nelson Rodrigues foi
novamente convocado por Dilma Rousseff. Sempre que tira os olhos do
teleprompter, a presidente sofre em sua árdua missão de fazer sentido. Nelson
foi o primeiro a satirizar essa esquerda parasitária escondida atrás de
bandeirolas do bem. Hoje talvez o dramaturgo acrescentasse ao “padre de
passeata” a “presidenta de teleprompter”. Alguém precisa avisar à assessoria de
Dilma quem foi Nelson Rodrigues. Era mais honesto quando ela traficava a imagem
de Norma Bengell.
Ao assinar contratos de
concessão de rodovias, Dilma citou o companheiro Nelson para dizer que “os
pessimistas fazem parte da paisagem, assim como os morros, as praças e os
arruamentos”. Por que não acrescentar: assim como as estradas estouradas, os
aeroportos em ruínas e o sistema elétrico em estado de coma. A paisagem da
infraestrutura brasileira hoje é tão impactante que fica até difícil enxergar
nela os pessimistas — mesmo que eles desfilem pelados contra a mentira da conta
de luz barata, e o desfalque de 12 bilhões de reais do contribuinte para
sustentá-la.
Dilma tem razão: não há
motivo para pessimismo. Basta olhar a situação dos seus amigos mensaleiros.
Eles montaram um duto de dinheiro público para o partido governista, na maior
engenharia já vista para roubar o Estado de dentro do Palácio do Planalto. Mas
o otimista, ao contrário do pessimista, sempre espera pelo milagre. E ele veio:
rasurando a sua própria decisão, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o bando
do mensalão, famoso pela monumental arquitetura do valerioduto, não era uma
quadrilha.
O esquema que envolvia
ministro de Estado, tesoureiro e presidente de partido, banqueiro, funcionário
público graduado e outros companheiros fiéis, todos ligados por um mesmo
despachante e uma mesma base operacional, agindo de forma orquestrada e
sistemática para o mesmo e deliberado fim, não constituía uma quadrilha. Agora
o Brasil já sabe: só há quadrilha quando os criminosos que fazem tudo isso
juntos são pessimistas perdidos na paisagem.
O discurso épico do ministro
Luís Roberto Barroso, inocentando os otimistas do crime de formação de
quadrilha — e liberando-os da prisão em regime fechado — é um marco de
esperança para os bandoleiros solidários, que abominam as trampolinagens
individualistas e neoliberais. E assim chega ao fim o julgamento do mensalão,
com a sentença histórica prenunciando os novos tempos: agir em bando com
estrelinha no peito não é quadrilha, é socialismo.
Foi emocionante ver os
ministros Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli — os já famosos Batman e Robin do
PT no Supremo — voando com suas capas em defesa de Barroso e do seu Direito
lírico. Todo esse otimismo permitia antever a chegada da sobremesa: a
absolvição de João Paulo Cunha (o Mandela brasileiro) do crime de lavagem de
dinheiro. A tese vencedora, mais uma vez esgrimida com arte por Barroso, foi de
que o então presidente da Câmara dos Deputados participou da corrupção sem
saber que o dinheiro que recebia era sujo. Era o dinheiro do mensalão, operado
por seus companheiros de cúpula do PT, mas ele, assim como Lula, não sabia. Os
otimistas são distraídos mesmo.
O ministro Luís Roberto
Barroso chegou a dizer que João Paulo não sabia da origem ilícita do dinheiro
porque não fazia parte da quadrilha. Logo retificou, dizendo que o réu não fora
denunciado por formação de quadrilha. Nem precisava esclarecer, todo mundo já
sabe que quadrilha não existe. Inclusive o governador do Distrito Federal,
Agnelo Queiroz, considerando-se o seu rolezinho na prisão da Papuda para
visitar José Dirceu, o chefe da ex-quadrilha.
Disse Agnelo: “Eu sou
governador, vou ao presídio a qualquer hora e visito quem eu quiser.” Está
certo. Se Deus e a quadrilha não existem, tudo é permitido. Agnelo deve ter ido
levar umas palavras cruzadas a Dirceu.
O companheiro Nelson
Rodrigues dizia que a única forma possível de consciência é o medo da polícia.
A desinibição da ex-quadrilha mostra que, para o PT, Nelson está
definitivamente superado.
O recado de Dilma aos
pessimistas servia também como resposta às críticas feitas à sua política
econômica no aniversário de 20 anos do Plano Real. Os autores do plano disseram
que esse negócio de esconder inflação com tarifas inventadas e esconder déficit
público com maquiagem de contas não vai acabar bem. Mas depende do ponto de
vista.
As pesquisas apontam a
reeleição de Dilma em primeiro turno, com toda a política monetária do crioulo
doido, a infraestrutura em petição de miséria, a pilhagem do mensalão e do
pós-mensalão, a contabilidade criativa, as ONGs piratas penduradas na floresta
de ministérios, a sangria do BNDES para a Copa dos malandros e grande elenco de
jogadas solidárias.
Isso não vai acabar bem para
a paisagem brasileira. Mas não tem problema, porque os companheiros otimistas
estão a salvo dela.
Nenhum comentário:
Postar um comentário