A estatização do futebol
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO - 12/07
Ficaria melhor na Dilma
Bolada - a falsa página da presidente nas redes sociais - do que na CNN, onde
apareceu na quinta-feira, o que provavelmente foi o mais tosco chutão da chefe
do governo nestes três anos e meio no Planalto. Numa entrevista gravada no dia
seguinte à catástrofe do Mineirão, ao defender uma "renovação" do
futebol brasileiro, Dilma disse que "o Brasil não pode mais continuar
exportando jogador". E, para deixar claro que o "não pode" seria
uma proibição pura e simples, ela emendou de bico: "Um país, com essa
paixão pelo futebol, tem todo o direito de ter seus jogadores aqui e não tê-los
exportados".
Em um surto provocado por
uma mistura tóxica de oportunismo - para que o pó da derrota em campo não se
deposite sobre o projeto da reeleição - e conhecido vezo autoritário, Dilma
falou como quem quer cassar o direito constitucional dos brasileiros de ir e
vir, dentro ou para além das fronteiras nacionais, como se o Brasil fosse uma
Cuba ou Coreia do Norte. Para justificar a enormidade, deu uma pisada na bola
de envergonhar um perna de pau. "Exportar jogador", caraminholou,
"significa não ter a maior atração para os estádios ficarem cheios."
Revelou involuntariamente, portanto, saber muito bem que boa parte ou o grosso
dos US$ 4 bilhões despejados na construção e reforma das arenas da Copa serviu
apenas para legar ao País uma manada de elefantes brancos.
Aprisionar os nossos jovens
mais promissores - como se isso fosse possível - absolveria, nos descontos, a
megalomania dos governos petistas de mostrar ao mundo o que o Brasil, sob a sua
iluminada condução, é capaz de fazer. Pura má-fé. O fato singelo é que, no
mundo globalizado, assim como profissionais de outras áreas, jogadores migram
para países onde o seu trabalho se inscreve em um negócio extraordinariamente
bem-sucedido. Ali podem ganhar em um mês o que aqui levariam anos. Isso porque
a estrutura do futebol brasileiro é sabidamente arcaica, corrupta e falida. O
povo não esperou a seleção ser goleada para desprezar os cartolas que enfeudam
clubes, associações e, claro, a CBF.
Faz uma eternidade que essa
estrutura precisa ser "renovada", como Dilma parece ter descoberto.
Mas não a submetendo à tutela estatal, como prega o ministro do Esporte, Aldo
Rebelo, do PC do B. Invocando nada menos do que o interesse da Pátria, ele
defende uma "intervenção indireta" (sic) numa atividade da qual a
própria lei (no caso, a Lei Pelé, promulgada em 1998) aparta o poder público.
Para começar, como ele deveria saber, a Fifa proíbe a intromissão de governos
nas federações nacionais. Agora mesmo a Nigéria foi suspensa por ter o governo
removido dirigentes de sua entidade futebolística. De resto, a promiscuidade
entre autoridades e cartolas multiplicaria os focos de corrupção, sem
modernizar o esporte.
O Estado pode, sim, impor
aos clubes uma série de condições para rolar as suas intermináveis dívidas com
o erário, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) faz com os governos que
lhe pedem socorro. O projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte,
pronto para ser votado na Câmara, condiciona o acesso dos clubes ao crédito
oficial à arrumação de suas finanças, reforma administrativa e pagamento em dia
dos salários de seus contratados. O Estado também pode - e deve - controlar a
migração de menores de 18 anos. Embora a Fifa proíba que sejam importados por
clubes estrangeiros, estes driblam a barreira contratando formalmente um de
seus parentes. Como no gramado, bastam regras e juízes que punam os
transgressores.
No mais, que o Brasil
aprenda com o que os dirigentes e jogadores alemães fizeram para renovar o
futebol nacional depois da sua vexatória eliminação da Eurocopa em 2004. Como
relatou o repórter Jamil Chade no Estado de quinta-feira, eles traçaram e foram
fiéis a um plano de renovação de quadros, no qual investiriam ao longo do tempo
US$ 1 bilhão. Minguaram as contratações de estrangeiros em benefício do talento
local. Os ingressos foram congelados. Ainda assim, o campeonato alemão é o mais
rentável da Europa. Os clubes são prósperos. O Bayern de Munique tem 11 times
completos - fora a equipe principal. E o Estado não teve nada com isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário