Pisos, tetos e bolsas
JOSÉ
ROBERTO DE TOLEDO
O
ESTADÃO - 28/07
Bocejo dos bocejos, a
intenção de voto em Dilma Rousseff (PT) não muda desde abril. A falta de
movimento e novidade aumenta a frequência de títulos que querem enxergá-los
onde não existem. Dilma "cai" e "sobe" em casas decimais
imaginárias. Às vezes, a notícia é explicar a ausência de notícia.
Um entediado poderia se
indagar sobre o motivo pelo qual Dilma, a despeito da piora dos indicadores e
das expectativas econômicas, nunca vai abaixo de 36% - na média dos institutos
calculada pelo Estadão Dados. As raras pesquisas em que isso ocorreu foram
pontos fora da curva, o que é tão mais esperado quão mais pesquisas são feitas.
Os pontos estavam fora porque nas pesquisas seguintes ela voltou aonde estava.
Vale a curva.
Por que, então, Dilma tem um
piso tão acima do que tem sido, por enquanto, o teto dos seus adversários? A
recente pesquisa Ibope permite testar muitas hipóteses, mas confirma poucas.
O primeiro motivo parece
óbvio, mas não necessariamente é: Dilma é conhecida de praticamente todo o
eleitorado. Ter mais presença na memória do eleitor do que os concorrentes é
uma vantagem, porém, apenas quando se é popular. A presidente deve ter saudades
de quando 20% dos eleitores achavam seu governo ruim ou péssimo. Desde abril,
sua desaprovação supera 30%.
Logo, a alta taxa de
reconhecimento do seu nome não explica por que o colchão de Dilma na opinião
pública é tão alto e resiliente. Afunda, mas volta. Há de haver outra
explicação.
E há. Mais de uma.
O Ibope perguntou ao eleitor
se ele ou alguém em sua casa é beneficiário de ao menos 1 entre 16 programas
federais, como Bolsa Família, Prouni, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e
Farmácia Popular. Pelas respostas, um terço do eleitorado vive em domicílios
onde pelo menos uma pessoa se beneficia diretamente por algum desses programas
do governo. Isso, 33%.
A pergunta óbvia é
"como votam esses eleitores?"
A maioria absoluta, 51%,
declarou que votaria em Dilma. O dado consolidado pode ser enganador, porém.
Apenas um dos programas federais faz diferença na eleição, justamente o maior e
mais famoso de todos eles: entre os beneficiários do Bolsa Família a presidente
chega a 58% das intenções de voto. Na média dos atendidos pelos outros 15
programas, a taxa de voto em Dilma é 38% - alta, mas igual à sua média no eleitoral
total.
A interpretação enfadada
desses números levaria à conclusão de que a candidata do PT só está à frente
dos seus adversários na corrida eleitoral por causa do clientelismo do Bolsa
Família. Infelizmente para a oposição, as coisas nunca são tão simples assim.
Entre quem não ganha nada do governo federal - nem ele próprio nem ninguém de
sua família - Dilma tem 32%.
E Aécio Neves (PSDB)? O
principal candidato oposicionista tem uma taxa de votos muito mais alta entre
os "sem programa" do que entre os beneficiários: 25%, contra 16%. Se
não houvesse Bolsa Família e similares, o tucano estreitaria sua diferença em
relação à presidente, mas ainda ficaria sete pontos atrás.
Dos 38% de intenção de voto
em Dilma, 17 pontos percentuais vêm do dito assistencialismo federal, mas os
outros 21 pontos são de eleitores que nada têm a ver com o Bolsa Família e
quetais. Do mesmo modo, quase metade dos eleitores assistidos pelos programas
do governo não declaram voto na presidente: 16% votam em Aécio; 7%, em Eduardo
Campos (PSB); 6% nos nanicos; 12% vão anular ou votar em branco; 7% são
indecisos.
Dar bolsa ao eleitor aumenta
em 60% as chances do candidato ganhar seu voto, mas não o garante. O alto
conhecimento de Dilma e o assistencialismo explicam apenas em parte a
resiliência da intenção de voto da presidente. O resto vem de quem aprecia o
Bolsa Família e similares mesmo sem recebê-los. Quem? Isso é assunto para outra
entrevista com os dados.

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