O PT, o eleitor, o Congresso e o capital
REINALDO
AZEVEDO
FOLHA
DE SP - 25/07
Decreto da presidente Dilma
chega a criar o embrião de uma Justiça paralela. É fato. Está lá
Haverá eleição presidencial
em outubro. É evidente que se trata de algo muito importante, e não serei eu a
subestimá-la. Se atentarem, no entanto, para a inflexão dos meus textos neste
espaço, ocupo-me menos das disputas entre A, D ou C do que de alguns choques
que se estabelecem em camadas mais profundas, dos quais os embates eleitorais
são só uma reverberação. Candidatos me interessam muito pouco; candidaturas me
interessam muito mais.
As promessas se escrevem na
água com o vento, como disse o poeta sobre o amor. Os valores duram no tempo e
fazem história, boa ou má. É por isso que não dou bola, reparem, para o que diz
ou pensa Dilma Rousseff. Ela é só carona de um modo de entender a sociedade
cuja extensão talvez ignore. Dentro ou fora do governo, Gilberto Carvalho, por
exemplo, o secretário-geral da Presidência, é personagem bem mais relevante.
Ele andou se referindo a mim de modo nada lisonjeiro. Ingratidão! Poucos, como
eu, reconhecem a sua real estatura. Desde os tempos em que ambos trabalhávamos
em Santo André...
O PT está se organizando
para se livrar do eleitor, do Congresso e do capital, e Carvalho lidera a
batalha. Na quarta, ele voltou a defender o decreto presidencial 8.243, que
disciplina a participação dos "movimentos sociais" na administração
federal. Os deputados tendem a derrubá-lo. Afirmou o ministro: "Se a
Câmara e o Senado tiverem bela inteligência política, não se colocarão na
contracorrente de uma exigência da sociedade. Há uma disposição de enfrentar
essa guerra. Não retiraremos o decreto, vamos até o fim. Se houver derrota,
quem pagará o preço são aqueles que se colocam contra essa participação".
Quem, pretendendo negociar,
fala em "guerra", luta "até o fim" e "preço a
pagar"? Isso revela a importância que assumiu esse instrumento na
estratégia petista. Observem que Carvalho ameaça os parlamentares com a cólera
do povo. Povo??? O chefão do PT fez essa declaração durante a assembleia de
eleição de representantes da sociedade civil no Conselho Nacional da Juventude.
Você sabia da existência dessa eleição? Quem, exceto a militância, estava
atento a esse calendário? Onde estão os fóruns de debates?
A suposta "democracia
direta" dos conselhos e movimentos sociais é só uma forma de sobrepor os
interesses de minorias organizadas aos da maioria, que se expressa por
intermédio da democracia representativa. Pensem no MTST, de Guilherme Boulos:
se todas as pessoas sem casa própria decidissem se submeter à sua liderança,
não haveria vantagem competitiva em ser seu comandado. É a lógica elementar da
exclusão, não a da inclusão, que torna operativos os ditos movimentos sociais.
Carvalho e o PT querem se
livrar do povo e do Congresso, submetendo as decisões do governo federal, pouco
importa quem esteja no poder, a milícias ideológicas, que são controladas, na
maioria, pelo partido. O decreto da presidente Dilma --e boa parte dos colegas
da imprensa insiste em ignorar seu conteúdo-- chega a criar o embrião de uma
Justiça paralela. É fato. Está lá. Basta ler o troço.
Os petistas também se
cansaram de recorrer ao "capital" para financiar eleições. E nós, os
jornalistas, somos os inocentes úteis de sua causa sempre que nos comportamos
como o Tambor, do Bambi, a gritar "Fogo na floresta!" ao noticiar a
doação legal de empreiteiras e bancos a campanhas eleitorais. Até parece que o
busílis está nas contribuições declaradas!
O Supremo já formou uma
maioria contra a doação de empresas, uma causa do advogado
"progressista" Roberto Barroso, que o ministro do STF Roberto Barroso
(!?) abraçou. O passo seguinte dessa "luta!" será o financiamento
público de campanha, ponto de honra da reforma que o PT quer fazer. Ah, será um
sonho! Se tudo sair conforme querem Carvalho e os seus, beleza! O povo, o
Congresso, a Justiça e o capital estarão no seu devido lugar: subordinados à
aristocracia petista.
Só dois partidos disputam o
poder no Brasil, ignoradas as diferenças de superfície, que são irrelevantes: o
que se subordina à ordem democrática e o que quer subordiná-la à sua ordem.
Escolha.
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