Nem xingamento nem vitimização
RONALDO
CAIADO
FOLHA
DE SP - 22/06
Acreditar que aqueles que
xingaram Dilma são integrantes da "elite branca e conservadora" é um
insulto à inteligência do brasileiro
É inaceitável numa
democracia que um presidente da República seja xingado publicamente de modo
grosseiro, especialmente num evento do porte da abertura da Copa do Mundo,
vista por mais de 3 bilhões de pessoas em todo o planeta.
É grosseiro, merece nosso
repúdio, mas não podemos esquecer o contexto que levaram milhares de pessoas a
xingar a presidente Dilma Rousseff no Itaquerão. E muito menos aceitar a
"vitimização" que o PT pretende impor à sociedade em mais uma de suas
"armadilhas" em lançar falsas questões em falsos debates, com falsos
argumentos.
Acreditar que aqueles que a
xingaram são "cretinos", "facínoras", integrantes da
"elite branca e conservadora" é um insulto à inteligência do
brasileiro e é imaginar que ele não tem memória ou capacidade de interpretar
gestos políticos.
Por anos o PT e seus
principais dirigentes atacaram duramente a figura do presidente da República,
qualquer que fosse o ocupante da principal cadeira do Palácio do Planalto. Os
ex-presidentes José Sarney, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, todos
eles sofreram agressões grosseiras de Lula e de outros próceres do partido. Na
fila de desafetos petistas incluem-se Mário Covas (chegou a ser agredido
fisicamente), José Agripino e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim
Barbosa, inclusive ameaçado de morte.
Essa sempre foi a estratégia
política do partido da atual presidente da República, desde a sua fundação. A
de agredir quem pensa diferente, a de acirrar os conflitos em dicotomias
simplistas --"elite branca" versus "maioria negra"-- e a de
não respeitar a decisão da maioria, como nos episódios da campanha do
"Fora FHC" e da Constituição de 1988, que resistiram a assinar.
Agora tentam utilizar o
episódio do Itaquerão para reverter a situação e "vitimizar" a
presidente Dilma Rousseff na figura de mulher, "mãe de família",
"avó indefesa", para obter ganhos políticos eleitoreiros. Esquecem,
propositadamente, que a própria Dilma Rousseff usou o dinheiro público na rede
nacional de rádio e TV para estimular o conflito. Contribuiu com uma safra de
ofensas que incluiu expressões pouco republicanas para a liturgia de seu cargo,
como "derrotados", "fantasmas do passado".
Tentam, ao vitimizá-la,
ludibriar a opinião pública e fazer com que se esqueça que, por trás das vaias
e dos grosseiros xingamentos, existem insatisfações concretas na população, que
já se materializaram nas ruas em junho do ano passado.
A economia vai mal, a
inflação recrudesce, os juros sobem e a corrupção grassa solta. Os gastos
astronômicos e superfaturados das obras da Copa, o inexistente legado e a incompetência
em cumprir o prometido comprometeram a imagem do governo e do país, aqui e no
exterior, como indicam as pesquisas.
Mesmo assim, numa vã
tentativa de iludir a população, eles fingem que essas informações não se
referem à gestão deles. Esse é o quadro, inaceitável numa democracia. Não
podemos deixar mais esse exercício cínico de vitimologia do PT prosperar.
Precisamos desmascará-lo e garantir um regime democrático pleno, sem
xingamentos, mas sem mentiras nem vitimização.

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