Agora, só rezando
J.
R. GUZZO
REVISTA
VEJA 03.05
Mais alguns dias, já na
semana que vem, começa finalmente essa Copa do Mundo que fez o governo
brasileiro exibir a si próprio e ao resto do planeta alguns dos piores momentos
de toda a história do Brasil como país de segunda categoria. O que dá vontade de
dizer, nessa hora, é: "Até que enfim". Com a bola rolando, e os
melhores jogadores de futebol do mundo em campo, explode, sem controle de
nenhuma força conhecida, a emoção incomparável que só os jogos heroicos
conseguem criar – com seus momentos sublimes de habilidade sobrenatural, a
crueldade dos acasos ou os milagres de último minuto. No caso da Copa de 2014,
junto com o primeiro jogo vem a esperança de que o futebol, a mais potente
magia esportiva jamais criada pelas sociedades humanas, possa proporcionar aos
brasileiros um momento de alívio numa tirania de sete anos que os governos do
ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff impuseram à população durante
os preparativos para o grande evento. Que tipo de tirania? Simples: a que
forçou o país a testemunhar (e a pagar por) uma exibição inédita de
incompetência em engenharia elementar, e de arrogância na negação de sua
própria inépcia.
"Já perdemos a Copa
fora do campo", disse o deputado Romário de Souza Faria. "Agora só
nos resta rezar para irmos bem lá dentro". Ninguém poderia resumir melhor
a realidade do que Romário. Antes mesmo do primeiro jogo, nada mais sobra
daquela Copa de 2014 que Lula, em 2007, festejou como a glória máxima de seu
governo. Prometeu, na ocasião, fazer a "melhor" Copa que o mundo já
tinha visto desde a primeira, em 1930, um empreendimento que transformaria a
vida das classes populares com quantidades prodigiosas de obras públicas e mais
uma tonelada de pura conversa mole. Desde então o que aconteceu na vida real
foi um massacre de mentiras oficiais, de humilhações na obediência servil a
exigências feitas fora do Brasil e de suas leis e de promessas grosseiramente
não cumpridas – como a de que não seria gasto "um tostão" de dinheiro
público na Copa, quando no fim das contas o Erário vai pagar quase 100% dos
custos. Os famosos benefícios para a população, como a "mobilidade" e
outras palavras tolas inventadas para fazer propaganda de fantasias, são uma
piada – as obras estão atrasadas, são de má ou péssima qualidade ou simplesmente
foram abandonadas. "Estou envergonhado de ser brasileiro", disse
Ronaldo Nazário, até há pouco um dos mais entusiasmados promotores oficiais da
Copa. Ronaldo, por sinal, lembra que todas as exigências da Fifa (que a
presidente Dilma, agora, exige que lhe tirem "das costas") foram
aceitas em 2007, sem discussão alguma, pelo governo brasileiro.
Não tendo como responder à
sua incapacidade, comprovada em sete anos, de organizar a Copa, o PT e
admiradores fazem o de sempre: ficam agressivos e falam bobagens desesperadas.
O primeiro a sacar o revólver foi o próprio Lula: disse que era uma
"babaquice" reivindicar metrôs que chegassem aos portões dos
estádios. Toda a ideia que sustenta o metrô, em qualquer lugar do mundo, é
exatamente esta: levar o máximo de pessoas ao ponto mais próximo possível dos
lugares aonde queiram ir. Para o ex-presidente, isso é um luxo idiota de que o
brasileiro não precisa. "Vão a pé, vão descalços, vão de jumento",
concluiu. Como é que um homem que se considera o maior líder popular do mundo
fala uma coisa dessas? Como um cidadão que construiu toda a sua vida dizendo
que é um trabalhador pode tratar assim os trabalhadores – os mais necessitados
de transporte coletivo de boa qualidade? No mesmo embalo, revelou que não
estava preocupado em saber se a Copa ia movimentar "30 ou 40 bilhões de
dólares" na economia brasileira – a seu ver, uma mixaria. Por que, então,
não disse isso sete anos atrás? Lula, no fim das contas, não terá dificuldades
de transporte – já anunciou que não vai comparecer a nenhum jogo da Copa. Não
faz nexo: se era uma obra tão fabulosa, como é possível que bem agora, no que
deveria ser seu maior triunfo, ele diga que não vai a "nenhum" jogo?
Justo ele, que inaugura até maquete de abrigo de ônibus? Lula disse que prefere
ver a Copa pela TV, pois terá muito mais conforto do que em seus estádios,
tomando "uma cervejinha". Cervejinha coisa nenhuma. Não vai porque
tem medo de levar uma vaia que ficará na história. A Copa de 2014 era para ser
uma coisa. Saiu outra.
Paciência. O único remédio
para isso chama-se coragem moral – a hombridade de que cada um precisa para
assumir as consequências de seus atos. É artigo que saiu de linha no governo.
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