Dilma, mais quatro anos pra quê?
REINALDO
AZEVEDO
FOLHA
DE SP - 06/06
O
que poderia fazer a presidente que não tenha conseguido operar em condições
mais favoráveis?
Jornalistas estrangeiros
perguntaram à presidente Dilma Rousseff por que a economia cresce tão pouco.
Ela disse não saber. Foi sincera. Não sabe mesmo. Como não tem o diagnóstico,
falta-lhe o prognóstico. Entre o passado, que ela ignora, e o futuro, que ela
não antevê, há este enorme presente à espera de medidas corretivas e
profiláticas. Ocorre que seu governo é como seu discurso: um caos de fragmentos
de ideias nem sempre muito claras, (des)ordenadas por locuções fora do lugar
"no que se refere" (sic) ao que tem de ser feito. Ninguém entende
nada, a começar da própria Dilma.
Dia desses, o ex-presidente
Lula julgou ter encontrado a razão do "malaise". Os empresários, de
mau humor, teriam deixado de investir. É mesmo? É próprio das cabeças
autoritárias --e esse é o caso do Babalorixá de Banânia-- transformar
dificuldades que são objetivas, que são técnicas, que têm origem em decisões
equivocadas, em mera indisposição subjetiva. Há quanto tempo estão dados os
sinais de que o crescimento da economia, ancorado no consumo interno, havia
esgotado o seu ciclo? Assim como teve início em razão de circunstâncias que não
eram do nosso controle, expirou por motivos igualmente alheios à nossa vontade.
E lá ficou Guido Mantega a fazer previsões de crescimento --coitado!--,
inicialmente, com margem de erro de dois pontos. Como a situação se deteriorou,
ela já está em três...
Dilma pleiteia mais quatro
anos, e eu fico cá a me perguntar --e espero, sim, que esta dúvida se alastre:
pra quê? Com que amanhãs sorridentes ela vai acenar, que não tenha podido
oferecer nesse tempo em que esteve à frente do governo, liderando uma base
parlamentar que, no Ocidente, só deve ser menor do que a de Cuba? Qualquer
analista razoável sabe que as circunstâncias vindouras são ainda piores dos que
as do passado recente. O que poderia fazer a presidente, num cenário ainda mais
inóspito, que não tenha conseguido operar em condições mais favoráveis? A
resposta é um conjunto vazio.
Mais do que a indignação
estridente dos grupelhos de extrema esquerda que estão nas ruas --estes só
contribuem para turvar a visão da presidente--, Dilma tem de temer é o silêncio
meio melancólico, mas não menos indignado, do homem comum, daquele que não tem
uma agenda ideológica e que não pretende reformar a humanidade desde o fim.
Contentar-se-ia com uma escola melhor, com uma saúde melhor, com um emprego
melhor, com um salário melhor, com uma vida mais previsível. Eu sei, Dilma sabe
e sabem os economistas e especialistas que os "gastos com a Copa", se
investidos em saúde e educação, seriam de uma danada irrelevância. A conta é
falsa, mas o problema para o qual aponta essa não solução é verdadeiro.
De 2002 para cá, o cenário
de agora é o mais adverso enfrentado pelos petistas. As migalhas compensatórias
já não têm a mesma força de antes para sustentar um projeto de poder. Parece
haver no país uma ambição um pouco maior do que a da pobreza agradecida, que
reverencia o nhonhô. Está certo o tucano Aécio Neves quando propõe que os
programas sociais, ditos de "transferência de renda", passem à
condição de políticas de Estado. De resto, eles devem ser apenas o começo da
conversa, não o fim. É preciso acabar com a prática nefasta de chantagear os
pobres.
A campanha que o PT levou à
TV indica que, sem diagnóstico nem prognóstico, restou apenas o terrorismo
eleitoral. Dilma pretende que o medo desinformado vença não a esperança, mas as
possibilidades de mudança. Pior: sem conseguir entusiasmar nem a sua própria
grei, cede a apelos "esquerdopatas" como "controle social da
mídia" e criação da sociedade civil por decreto, evidenciando que, sob
pressão, pode, sim, voltar à sua natureza. Mais quatro anos pra quê?
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