Pânico na elite vermelha
GUILHERME
FIUZA
O
GLOBO - 30/08
Armínio
Fraga foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — a última coisa
séria feita no Brasil
Pela primeira vez em 12
anos, os companheiros avistam a possibilidade real de ter que largar o osso.
Nem a obra-prima do mensalão às vésperas da eleição de 2006 chegara a ameaçar a
hegemonia dos coitados sobre a elite branca. A um mês da votação, surgem as
pesquisas indicando que o PT não é mais o favorito a continuar encastelado no
Planalto. Desespero total.
Pode-se imaginar o movimento
fervilhante nas centrais de dossiês aloprados. Há de surgir na Wikipédia o
passado tenebroso dos adversários de Dilma Rousseff. Logo descobriremos que
foram eles que sumiram com Amarildo, que depenaram a Petrobras, que treinaram a
seleção contra os alemães. É questão de vida ou morte: como se sabe, a elite
vermelha terá sérias dificuldades de sobrevivência se tiver que trabalhar. Vão
“fazer o diabo”, como disse a presidente, para ganhar a eleição e não perder a
gerência da boca.
O Brasil acaba de assistir à
queda de um avião sobre o castelo eleitoral do PT. Questionada sobre as
investigações acerca da situação legal da aeronave que caiu, Dilma respondeu
que não está “acompanhando isso”, e que o assunto não é do seu “profundo
interesse”. Altamente coerente. Se a presidente e seu padrinho não
“acompanharam” as tragédias no governo popular — mensalão, Rosemary e grande
elenco — não haveria por que terem “profundo interesse” numa tragédia que veio
de fora. Eles sempre fingiram que estava tudo bem e o povo acreditou, não há
por que acusar o golpe agora. Avião? Que avião?
Melhor continuar
arremessando gaivotas de papel, para distrair o público. Até o ministro
decorativo da Fazenda foi chamado para atirar a sua. Guido Mantega, como Dilma
e toda a tropa, é militante de Lula. O filho do Brasil ordena, eles disparam.
Mantega já chegou a apresentar um gráfico amestrado relacionando o PAC com o
PIB — um estelionato intelectual que o Brasil, como sempre, engoliu. Agora o
homem forte (?) da economia companheira entra na campanha para dizer que
Armínio Fraga desrespeitou as metas de inflação. Uma gaivota pornográfica.
Para encurtar a conversa,
bastaria dizer que Armínio Fraga foi um dos homens que construíram aquilo que
Mantega e seu bando há anos tentam destruir. Inclusive a meta de inflação.
Armínio foi o comandante da etapa de consolidação do Plano Real — última coisa
séria feita no Brasil — enfrentando o efeito devastador da crise da Rússia, que
teria reduzido a economia nacional a pó se ela estivesse nas mãos de um desses
bravateiros com estrelinha. Mantega e padrinhos associados devem a Armínio
Fraga e aos realizadores do Plano Real a vida mansa que levaram nos últimos 12
anos. E deve ser mesmo angustiante desconfiar pela primeira vez que essa moleza
vai acabar.
Se debate eleitoral tivesse
alguma ligação com a realidade, bastaria convidar os companheiros a citar uma
medida de sua autoria que tenha ajudado a estruturar a economia brasileira. Uma
única. Mas não adianta, porque, como o eleitorado viaja na maionese, basta aos
petistas dizer — como passaram a última década dizendo — que eles livraram o
Brasil da inflação de Fernando Henrique. A própria Dilma foi eleita em 2010 com
esse humor negro, e jamais caiu no ridículo por isso. Com a fraude devidamente
avalizada pelo distinto público, Guido Mantega pode se comparar a Armínio Fraga
e entrar em casa sem ter que esconder o rosto.
Em meio às propostas
ornamentais, aliás, Armínio é o dado concreto da corrida presidencial até aqui.
Nada de poesia, de “nova política”, de arautos da “mudança” — conceito tão
específico quanto “felicidade”, que enche os olhos da Primavera Burra e dos
depredadores do bem. Armínio não é terceira, quarta ou quinta via, nem a
mediatriz mágica entre o passado e o futuro. É um economista testado e aprovado
no front governamental, que não ficará no Ministério da Fazenda transformando
panfleto em gaivota.
O PSDB, como os outros
partidos, adora vender contos de fadas. Mas seu candidato, Aécio Neves,
resolveu anunciar previamente o seu principal ministro. Eis a sutil diferença
entre o compromisso e a conversa fiada.
Marina Silva também é uma
boa notícia. Só o fato de ser uma pessoa íntegra já oferece um contraponto
valioso à picaretagem travestida de bondade. Nunca é tarde para o feminismo
curar a ressaca dos últimos quatro anos. O que seria um governo Marina, porém,
nem ela sabe. Se cumprir a promessa de Eduardo Campos e empurrar o PMDB S.A.
para a oposição, que grande partido comporia a sua sustentação política? Olhe
em volta e constate, com arrepios, a hipótese mais provável: ele mesmo, o PT —
prontinho para a mudança, com frete e tudo.
Marina vem do PT e está no
PSB, cujo ideário é de arrepiar o maior sonho cubano de José Dirceu. E tentar
governar acima dos partidos foi o que Collor fez. Que forças, afinal,
afiançariam as virtudes de Marina?
A elite vermelha está pronta
para se esverdear.
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