O PT quer pautar a imprensa
EDITORIAL
O ESTADÃO
O
ESTADO DE S.PAULO - 23/08
A direção do Partido dos
Trabalhadores (PT) entrou na Justiça Eleitoral para obrigar a Rede Globo a
ampliar a cobertura das atividades de campanha de Alexandre Padilha, candidato
do partido ao governo do Estado de São Paulo. Ao pretender determinar o que uma
emissora de TV deve mostrar a seus telespectadores, os petistas reafirmam sua
visão autoritária a respeito do trabalho da imprensa e seu desprezo pelo
jornalismo independente.
A tarefa de informar bem
seus leitores, ouvintes e telespectadores, obriga as empresas jornalísticas a
estabelecer critérios de seleção de informações, para entregar a seu público as
notícias que terão relevância em sua vida, deixando de lado as que, a seu
juízo, têm menor importância. Assim, cada redação define quais acontecimentos
serão dignos de cobertura extensiva e quais merecerão espaço menor. Tais
parâmetros, que integram o bê-á-bá do jornalismo, podem mudar de veículo para
veículo, mas há algo que, em democracias, não mudará nunca: o princípio de que
as empresas jornalísticas devem ter ampla liberdade para adotar os padrões de
seleção de informações que melhor atendam seu público.
É justamente nessa
liberdade, central para o exercício do jornalismo independente, que o PT
pretende interferir, em defesa de uma suposta "isonomia" de
tratamento para todos os candidatos ao governo paulista. Tal exigência de
igualdade, da maneira como está sendo enunciada pelos petistas, serve apenas
para ferir a autonomia que um veículo deve ter para determinar o que é digno de
ser publicado e o que não é.
A Rede Globo entendeu que
deveria dar mais espaço em seus telejornais aos candidatos ao governo paulista
com mais de 6% de intenções de voto. Com isso, recebem destaque diário apenas
os dois primeiros colocados, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e Paulo Skaf
(PMDB). Na última pesquisa do Ibope, Padilha, o candidato petista, surge em
terceiro lugar, com 5% das menções. É o mais bem colocado entre os
"nanicos" - está à frente de outros três candidatos que dispõem de 1%
cada - e por isso aparece com frequência menor no noticiário da emissora.
No entender dos petistas,
porém, a Globo estabeleceu parâmetros sob medida para, deliberadamente, sonegar
de seus telespectadores o noticiário sobre a campanha de Padilha. Em carta à
emissora, o presidente estadual do PT e coordenador da campanha petista, Emidio
de Souza, disse que "não cabe a um veículo de comunicação definir
critérios" para a veiculação de informações sobre a eleição. Para
questionar as escolhas da Globo, Emidio diz que, pela margem de erro da
pesquisa, de três pontos porcentuais, Padilha pode estar com 8% - acima,
portanto, do piso estabelecido pela emissora. Por essa lógica, porém, o petista
pode estar com 2%, em empate técnico com os outros "nanicos".
O aspecto relevante nessa
polêmica, no entanto, não são alguns pontos porcentuais para mais ou para
menos, e sim a reafirmação da vocação autoritária do PT e de sua hostilidade
contra a imprensa livre. Em nota sobre sua petição à Justiça Eleitoral, o
partido chega a exigir que a Globo "abra espaço diariamente em sua
programação normal para todos os candidatos" ou então "que se
abstenha de cobrir a agenda de qualquer um deles". Trata-se de uma
tentativa grosseira de pautar uma emissora de TV.
Ainda que arrogante, no
entanto, a manifestação petista não se compara às grosserias do ex-presidente
Lula, que qualificou como "sacanagem" os critérios da Globo para a
cobertura eleitoral em São Paulo. "Já fui vítima de todas as sacanagens
que vocês possam imaginar, mas tem coisa que vai ficando insuportável",
disse Lula num evento de campanha no início de agosto. "Em São Paulo, a
sacanagem é tamanha que eles decidiram que só vão colocar os candidatos acima
de 10% (sic) para tirar o Padilha da televisão. Cada jogo, em cada eleição, é
uma sacanagem."
Como aquele que jamais se
constrangeu ao fazer propaganda eleitoral fora de hora nem a colocar a máquina
do Estado a serviço de seus candidatos, Lula deveria saber o que, de fato, é
"sacanagem".
Nenhum comentário:
Postar um comentário