Hipersensibilidade jeca
MARCOS
TROYJO
FOLHA
DE SP - 01/08
A tensão governo
brasileiro-mercado é reveladora dos repentes e erupções emocionais que
acumulamos em nossa interação com o mundo.
Além de erros de diagnóstico
ou visão de futuro, tal acervo de improvisos demonstra amadorismo e desconforto
na convivência com uma sociedade aberta e global. É agravado por atabalhoamento
juvenil numa cena mundial em que holofotes são lançados mesmo a países de maior
tradição insular.
Há dez anos, quase
invalidamos o visto de trabalho do correspondente do "New York
Times". Larry Rohter esteve prestes a ser expulso ao retratar suposta
predileção do então presidente por um bom copo. A mercurial reação do governo
fez com que a matéria de baixo relevo fosse avidamente lida no mundo todo.
Em 2008, dissemos que do
vagalhão precipitado pela crise financeira chegaria ao país apenas uma
"marolinha". Hoje, indevidamente atribuímos nosso subdesempenho
econômico àquele tsunami.
Em 2009, denunciamos a
"guerra cambial" perpetrada pela frouxidão monetária dos ricos.
Agora, torcemos secretamente para que os estímulos continuem de modo a não
rarear o fluxo de capitais para emergentes como nós.
Em 2011, peroramos a Merkel
que não se superam crises com austeridade, mas crescimento. Fecharemos o
quadriênio Dilma com o mais baixo crescimento desde os tormentosos anos Collor.
De 2012 para cá, utilizamos
ministros de Estado ou notas do Planalto para rebater o "Financial
Times" ou "The Economist". Não apenas por discordar da crítica,
mas sobretudo por entender não terem direito de "imiscuir-se" em assuntos
do país.
Em 2013, empenhamos enorme
capital diplomático para eleger um brasileiro à direção da OMC, supostamente
para fortalecer interesses dos países em desenvolvimento. Professamos fé nos
acordos multilaterais, pois neles não há "imposição dos mais fortes sobre
os mais fracos". Hoje vemos o frágil compromisso de Bali, pelo qual
Roberto Azevêdo moveu montanhas, torpedeado por Índia, Venezuela e Cuba.
Ao lugar-comum do Santander
sobre impactos econômicos da reeleição --já manifestado em centenas de informes
de instituições financeiras-- a presidente reagiu como "inadmissível
interferência" no processo eleitoral.
Seu antecessor, há pouco
considerado o "político mais popular do mundo", pediu a cabeça --e o
bônus-- do redator do sofrível texto. Este, dada a repercussão, já correu mundo
graças ao Google Translate.
Nesta atribulada semana,
quando a óbvia prudência recomendaria relativizar eventual default argentino,
bradamos aos quatro ventos na Cúpula do Mercosul que o impasse Buenos
Aires-abutres "ameaça o sistema financeiro internacional".
Essa lista não-exaustiva de
equívocos evidencia desdém com estratégia de inserção global delineada pelo
interesse nacional de longo prazo. Em vez disso, posturas imediatistas e
direcionadas ao perecível consumo do público interno. Estamos respondendo aos
desafios de uma conjuntura planetarizada com uma hipersensibilidade jeca.
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